quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

dois comprimidos ao dia

http://2comprimidos.wordpress.com

domingo, 22 de novembro de 2009

Nunca soube como escolher o que publicar aqui, nunca existiu critério. Apenas uma vontade engraçada - e cá estava. Vontade esta logo seguida por um sentimento de incompletude, de irrealização, o qual me sabia após cada novo poema exposto. Este, fez-me modificiar extensamente todos os escritos, alguns quase por completo, outros ainda muitos meses após sua primeira versão.

Só muito tarde, quase hoje, é que notei a razão que me fazia decidir tanto o que publicar, quanto o que modificar: tudo aqui, fim de contas, é igual. Tudo se pertence. Tudo é unido; cada letra é a mesma da próxima letra, que é a mesma daquela que acabei de escrever nesta linha.

Sem saber direito, aos poucos destilei um amálgama, um colorido pleonasmo.

Desta forma, por um ano decorri sobre infinitos aspectos de uma mesma coisa: cada rima aqui escrita não passa de repetição. Cada poema não é uma granada, nem sequer é um poema. Nem meio-poema.  Tudo que atinge sua vista, cada cor, símbolo e brilho: talvez isto, sim, tudo ao mesmo tempo, seja um princípio de poesia.

Noto, também, que a linha que costura por entre todos esses versos não mais prevalece. A confecção deste projeto, apesar de, a meu ver, inacabada, precipita um insistente fim. E aqui o declaro, então: fim.

Mas lembro: caso queiram ler, façam-no sem atenção. Apenas vejam cada frase como irmã da outra, cada vírgula como uma célula de um organismo. E tentem não se entendiar demais.

domingo, 8 de novembro de 2009

Sinfonia oca: Α

Cortinas numa janela escondem o passeio
de alguém sentado
em rodas -
brincam nas palmas as moedas
da ilusão.

O céu a chuva o rio
o riso a flor a morte
- cuidado,
muito
cuidado

com as farpas
do carinho

com as mágoas
que cosem

o véu
impuro
do caminho...

Sentem os calos?
Vocês sentem
os calos
nos dedos
na cara
na calma
no resto?

Apáticos blocos de concreto
aventurando-se a ter alma---
conhecendo o mar
conhecendo o amar;
mas sem saber
como
nem
o porquê

(apenas que é
em vão).

Sinfonia oca: β

Mistérios de soslaio: lembrança
daquelas coisas
que vão mas que
voltam
aonde sentem que nasceram:
bichos
encouraçados, bestas
no desconhecido
surfando as ondas
do seu próprio poço:

vão e
voltam

vão

e voltam

vão

e

vol

tam

-

leigas, lógicas
lésbicas -

no fundo do poço há ondas:
esses bichos
que sempre
voltam.

Sinfonia oca: Γ

O punhal clama por um brinde
desenha palavras de criança
e revela o nome da droga.

Um plástico saco se joga -
a mente voa e no vale dança:
folha que sua árvore prescinde.

Garoto; mortalha na cama
os seus pés no solo pregados...
alfinete, inseto, cortiça.

Sexo na areia movediça:
e a mariposa goza o fado
de um último círio que a chama.

Sinfonia oca: Δ

Vejo um caubói que sobe o morro; secos. O seu cavalo trota, patas secas pingam nota após nota. O dia é pequeno, o mundo quente, a estrada íngreme, não há previsão de alívio todo o amarelo ali sufoca.

Vejo a cauda do rato que escapa, as unhas do rato que escapa, o grito do rato que escapa;

vejo a flor que nasce e é cortada, a flor que nasce mutilada, a flor que rasga e que fronda pelo avesso;

vejo o rio, teu rio meu rio, profusão de água: o rio onde se nada, onde não se é nada.

Nada.

E vejo a morte,
a morte em sua banheira, a morte num quadro de giz, a morte no gesto da embalagem, no estigma do berço, na gargalhada estranha no distante corredor; no clima que sufoca, no amarelo íngreme que é toda a previsão de alívio, na estrada quente, no mundo que é pequeno como o dia.

E é dia. Seco.
Nada.

Dia.

O caubói apressa o passo. O cavalo cansado transpira a espuma do mar. O céu é vasto, depois da aba do chapéu. O morro acaba. A brisa aponta para a descida.

Arfa.
Cospe.

Ri:

não foi
desta vez.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Serotonina

Surte efeito o bilboquê
na criança
que sozinha brinca
sob meus cabelos;

ela, ao jogar
na desavença entre
os seus
e os meus
brinquedos, escolhe dar-me
espanto

ou
contentamento:

a tirania do
seu sorriso
é o que
decreta a minha
própria
fotografia

na incerteza
do momento.

Caso a esgrima de suas
artes
provoque-lhe
qualquer sorte
de angústia ou medo
em mim se abate logo
um calado alarde
um gesto
vazio

um frio
arquear dos meus
artelhos...

E se por vezes seu pequeno
coração
da vela acesa
constrói o gelo
faz-se mau-tempo:
bicho preso
pausa quente, casa escura...

tempestade-estado sem uma possível
destinação.

sábado, 17 de outubro de 2009

Dentro de mim não há país

Já tive o velho coração
das cartas numa gaveta

e fui miúdo:
fino traço
ante a garganta do espaço.

Nublados dias vindos
colhi relâmpagos

que possuí

como a vida
na fácil esfera
do aquário.

Sob a chuva, amei

por diversos nomes
coloridos:

goles
ruas
rimas

libido;

e senti
ora martelo
ora madeira
que nos condensamos
antes mesmo de entender:

no curto mapa nosso

há
o mundo
todo

sem, contudo
país haver.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sala de espera

A sala é pequena e as cadeiras desconfortáveis, a televisão transmite notícias com interferência e cinismo, o reinado das revistas de alguns anos atrás ainda não terminou: lentamente se dissolve no café frio o calado açúcar da espera. Uma pequena janela grita pedaços de sol que se espalham como cacos de vidro partido pela noite. O chão está limpo e nesse espelho eu me enxergo vestido como sempre, penteado como sempre, olhos abertos como sempre, estático como sempre. Sonhos presentes como sempre - lustrada parte da mobília. Escuto chuva lá fora, escuto chuva aqui dentro: a natureza é uma rádio puramente comercial. Na pequena copa ao meu lado há comida espalhada no balcão, no bureau em minha frente um protótipo de andróide, no canto dos meus olhos a verdade que não entendo. No advento de meu nome, estalo os dedos, respiro o frio, respeito os ausentes, vago até a branca parede do corredor. Sigo austero, sigo calado, sigo meio morto, meio ingrato, meio destemido, meio aço, meio água-viva... todo um rolo-compressor. No novelo de lã dos meus dedos entusiasmados deposito inteiramente as vontades daquelas horas patéticas, dos resquícios das eras, das magnitudes do vácuo, e galgo com a angústia do leopardo, velho e faminto, no momento em que encosto, no momento em que me comunico com o calor pesado da maçaneta
de repente, o filme pula para os créditos e as cabeças confusas projetam cordilheiras engraçadas na tela.

Da hipocrisia himenal

Quando passas na rua, pia e augusta
com todas as chagas de quem não ama
vem-me o sarcasmo de um sorriso às custas
de teu próprio sorriso em minha cama:
como te consegues fazer em dama
tão serena e austera que até assusta;
onde escondeste tua incrível chama
que queima quando a carne tu degustas?
Teu olhar que agora denota um basta
e se abaixa sem se entregar à luta
acha que, ao se fingir, o fogo afasta;
mas não és a única assim astuta!
Muitas, como tu, se dão a labuta
de caminhar como uma santa se arrasta...
Preocupai-vos tanto em não serdes putas
ou tão-somente em parecerdes castas?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Depois

A seda do cabelo
suado
profanando a palidez
da fronha

os gestos
pela metade

o riso
frouxo
mas delicado;


- eu te amo...

alguém conta
em segredo
com os olhos
apertados.

Uma mão
busca a outra:
os dedos trocando
os códigos
sutis
da cumplicidade.


- Mais que tudo...

responde o eco
e os pés se encaixam
magnéticos
em meio ao berço
bom
do escuro.

Macio
chega o sono
e faz em mármore
aquela cena:

esculpidos
um no outro

complementares

necessários

naturais

vazios:

dois pequenos
animais
no frio.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A vendedora

Passeando por um
país
onde não entendo
as placas
não entendo as ruas
não entendo, na verdade
porra nenhuma -

estou perdido

e irritado.

Dobro esquinas, macaqueio informações
interpreto
mapas;

nada.

Inconsolável
passo na frente de uma loja
e olho demoradamente os números
dos preços
meus últimos amigos
calados e nobres como toda
a matemática.

No interior
da loja

uma jovem
vendedora
está de cócoras.

Não deixo de notar que
ela
sem saber
expõe o engraçado
vale
entre as formosas fatias
de seus belíssimos
glúteos.

Ela se ajeita devagar.

Carinhosamente

olha para trás.

Me vê.

Sorri.

Eu sorrio de volta
quase que
em
agradecimento.

Logo
ela continua, vendendo

e eu continuo
um pouco menos
perdido.

Interessante como
mesmo uma bunda
às vezes
é um mundo.

Ou vice
versa.

Kitsch

um gatilho iluminando
todo um continente
de possibilidades

a morte, o som
escuros
como o último útero
impregnado.


é manhã
a mais

tenra manhã

mas
o derradeiro projétil
já percorre o corpo

lento
esperto

um besouro
carnívoro

e paciente:

a unha arranha o quadro
e o mundo se contrai sob seu domínio inconcebível.

ainda bem que há o cinema
americano
os sanduíches os sorvetes os bichinhos
de pelúcia ---
toda, toda essa
tralha

para nos
igualar.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

"De costas" ou "El gran masturbador, Dalí, 1929 - óleo sobre lienzo"


pequenos
órfãos
detentos
órgãos
sob a pele -

amores.

quatro câmaras
os comportando

mas quantas flores

sem estação?

pelo visto
nada é apto
e
há muito
mais xisto
que o previsto
hirto
espaço calcário:

um vaso todo
lado de dentro.

os dentes
sonham
fadas distantes
sedentos
pelos ossos
sobre ossos

os pelos
nossos

ambos fossos
fundos
frutos -
sementes tardias
elaboradas com
um
riso exausto.

meu leito
arco firme
contra a noite
que calcula tantos
quando estou só

a seta
que inveja
o branco
do nascente:

entre as unhas
extrai-se o rubro

e entre as coxas
nossas próprias
respostas.

pena
quando surgem
estarmos
de costas.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A corrente do dia

na varanda

o cigarro aceso
olhando a rua em marcha.

como a brisa
que refresca
dois ou três poemas
batem leves
na porta
e me entregam as cartas
já velhas e marcadas
conquanto valiosas
da contemplação.

vejo folhas
alaranjadas
e bicicletas
muros
e mesmo
exércitos, quem diria.

outros são bolhas
ora transparentes
ora
coloridas -

até chegam a estourar
bem ali diante dos
meus olhos

arregalados.

mudo
como somos
nada efetuo
até que o momento
pano muito curto
se encerra.

ele acaba, eu
acabo

e também o cigarro
acaba.

arremesso-o:
seu corpo sofre
e cai
dilacerado
no andar inferior.

sei que alguém o achará
e herdará
um pensamento repleto
de dúvidas e tantas
outras
coisas estranhas.

mas ai
já não é mais
problema meu.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Do outro lado

Quando primeiro te vi
--- tão hirsuta a tua face!
pensei logo nas roupas novas
que exibias sem notar.
Logo, ali me estacionei.

Não deixei pesar teu nome
mas adverti - como vai?;
e ao virares como máquina
sabia que já julgavas
todo esse meu avatar.

Nos espaços do sorriso
falso que me encomendaste
imaginei-me entre o préstito
da tua resiliência -
tuas mãos me carregando...

Portanto, conheci a tumba
sob o modelo de esquife
dos teus óculos-escuros.
A tua resposta tão breve
meu lacônico elogio...

domingo, 23 de agosto de 2009

Ela

Agora
que nossos dados
nunca acertam a soma;
que nossos
isqueiros
curtem outros bolsos e
ignificam
outras chamas

e o provador
de roupas tão
caras
que teu peito
insistente enquadra
redunda
o nada
entre reflexos;

agora
que somos dois
encarando um ao
outro -
olhos trancados
do lado de fora;

que não escolhemos mais simpatias
para acalmar
as feras
no zoológico
de nossa antecipação

e os vagos
gráficos
da nossa íntima
economia
jazem, francos
como o outono.

E nosso idioma
não resiste
à peçonha
das heras:
flora do dialeto
que plantamos.

E as lágrimas
não têm mais o chumbo
que outrora
algum valor
lhes dera.

Agora

nada
mais

nos

ela.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Remember when we were in Tokyo?


- The robots-
All the stars:
toy plastic cars
that urge to come and go.

- The tragic
novelty
of neon blood
stains.

An eulogy
over a pile
of darkened broken bones

the misfit of
glass
in the break of
a smile.

And there is
flame
blue green white
flame
lighting the cigarettes
of every
well-intentioned
devil
that chooses to walk the street, every
devil
that chooses to laugh
instead of surrendering
to the meditating light bulbs
of the endless corridor
where all the love
turns into
blurred make up
and
tired handwriting.

The wind is high
fresh
and sound.
The flesh is made out
of Ginza’s
shopping bags.

The quilt
of the mind
and the hammer
of the
heart
are
fed
eternally
to the electricity
under my knees.


-The haze-
Your breath
perceived the incoming aircrafts
stopping
in prayers
for every fraction
of their noisy flights.
Every atom of your will
gathered in peace
defeating the beauty
of the static sun.

My hands
warm against your want;
our lips
cotton dreams
woven in a red and white
unrehearsed
play.
The afternoon spoke
slowly
whispering
revealing jokes
of unthinkable
blasphemy.

The careful leaves of the sakura
lifeless, fearless
sheets of grace
hovered as the cranes
who love their nests.

Both our eyes
both our hearts
knew the matter
- living matter
that delivers chills
like childish kills
to our back
when the city's
furious kiss
hits the
unwary snow.
-The saints-
In the funny
peaceful temple
we drank water
so it would
purge the soul
(even though
all our thoughts
meandered
turning old
the cobblestones
of loneliness).

The happy animals
who roamed free
asked with
humble eyes
while
they sat about -
when will the firmly rooted heart
wither
drowned by the fearful tide
of the cutting night;
when will the hands become useless tools
meaningless weights
instead of
cosmic knots?

Pass the atmosphere
where the air is brief
we could be forever
wrapped in lightness
and white
but in here
despite the prayers
the clapping
the incense
the faith
- plus, the
firm demanding
of the adamant
earthquakes -
all we can be
is a half.


- The crow-
A bird
against the light;
the streets eager
for the easiness
of meat.

No peace -
nothing in the pace
of history.
A centipede
with a million eyes
roams
watching every one
of my
infinite sides..

Is it pain
is it sadness
that I speak to
when I wander
right onto
the photograph
of your
warm reeds?

- The river
keeps on
not unlike
infinite swords.

My wrists
ache
under names
I can’t regret
and my walls
all carry
messages
in complicated
ideograms.

There are so many faces
in only one smile;

so much waiting
in an airport
where there are

no landings

and where
steel concrete iron wires glass hurt

compose the best
of a confused
whilst everlasting

landscape.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Sono sobre rodas

Cidade da noite, apetrecho
do asfalto celeste. Lua volante
blues atlântico no rádio
e um onírico acelerar
sobre o carbono e o enxofre.

Insetos estelares no
parabrisa do edifício.
O on/off do meu a/c.
Velocidade prostrada.

Acostamento com appeal:
manhã. Surge a alvorada -
Alva Rd. -, viagem de
carona e solidão.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Madrileña

primeiro: houve o encanto
de seu corpo
teso -
não sei dizer!

algo vegetal, macio
mas com um certo vermelho
e, claro
no embrulho
de sorrisos incompreensíveis.

logo: sua parte
nas entrecenas

a volúpia branca
de um mero mastigar -

em cada gesto um
gato

lento

lascivo

notívago

a progredir...

enquanto os olhos
bolasdegude
me corrompiam

sua língua
ecológica
se poupava, mas
ardia
encrispada
como uma lagarta
quando sonha
em nos queimar;

músculos
todos cordasvocais:
o rondar do touro
ao farejar seu
próprio sangue -
orando pelos aplausos
de um mísero golpe.


nunca soube eu antes de beleza
rica, oculta

tão inseto;

brumas lúdicas -
cordabamba lúbrica
todas esquinas numa enorme

cidade-mulher.