terça-feira, 28 de julho de 2009

Ars longa

Vejo um quadro e sem notar me retiro
neófito com seu inútil olho -
vago um momento e logo me recolho
distante do mundo um completo giro.
Outras eras me sabem outras artes
mas nada ao certo me atinge ou apraz...
Longe, ignoro as mais novas mas assaz
lembro-me daquela outra que destarte
não tive o senso de sorver inteira!
Súbito me volta a obra abstrata
e ela em tantas trovas tão bem me trata
só para se afastar tão cedo eu queira
provar em sua cor a doce tinta -
dura moldura do que quer que eu sinta...

Neolitizando

Meio-dia na estrada humana
rabos em
carros e aviões.

A esperar a cancela
que não abre ou incide;
o sol exato no
ponto mais enxuto
de destruição:

o metal do cardume
belicoso
reverencia
o agressivo sílex.

A angústia infinita
nos cílios medonhos
abruptos ocasos tristonhos
dos neandertais em

seu rugido mais blue

sua segunda-feira mais cu

pertencendo sem ser
alguém..

quem é?

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Passagem - manhã

Cada dia da semana a cloaca divina lança o reciclável ovo da manhã
abrindo margem para a refeição sonolenta.
Cada dia da semana
a família perturba a superfície da infância
e cada cão cada gato cada cisne
canta com os gestos
triviais de um desconcerto -
velho conhecido.

Se somos ou se sabemos
não passa de
uma
meia questão.

Tribos cinéfilas, refeições
sincréticas
o trigo em um
o iôiô de um gozo
vínculos de doença
sirene:
exercemos a expiação
durante o breve alívio
da ducha.

Vida como ser marginal desse
perecível instrumento de calor;
infinita espada
córrego despreendedor
imensa
fatia daquilo que esperamos sem nos darmos conta
sorriso
impossível por invísivel
ser, presente e
alvo, óvulo
das sete pernas, cada qual alimentando-se
dos seus cíclicos frutos
frágeis como Aquiles.

Prisma do encontro
prisma do profano
prisma e culpa
insaciável
reincidente
pequena mentira que arqueia
a clara língua solar.
Arquivo natural, cristal inestimável e sonoro
dos antigos nomes
sem qualquer origem
apenas
inspiração.

E expiração.

Passagem - tarde

Cavam os pés e
pendulam os sinos:
mil e um inventos:
nenhuma trivialidade
esclarecida.

Evidentemente a sede já é larga
para o seio parco ---
a lágrima barata
que se arrasta no meio
de algo metade cara metade coração.

A simetria
do externo
e o inimaginável do eterno
relutantes asas
nas nossas frágeis costas
nos nossos ínterins.

Sete, também
são as passagens pelas
quais acalmo e nutro cada giro
cânion e
cavalo, tão amos quanto cativos
da caixa elementar
invólucro
do desconhecido mundo-eu.
Mundo-nós.

Sementes pequenas dão
as caras
aqui nos meus dedos do pé -
a marcha empilha
as flores serenas
gradualmente descoloridas.

As pétalas são como chamas
fósforo puro da fertilidade.

A criança idiota passeia incerta
trovejando a pisada bamba.
A sua casa é grande
insípida
boa;
cai de joelhos e de repente decide rir.

Passagem - noite

I.

Sonora e cadente, a tempestade é nossa memória de um chuveiro: somos as pálpebras beijadas, somos a falta dos outros, somos a lua quando está numa canção e a estratégia mais leve de uma mente inquieta e feliz: a água é saliva, o vento é um soluço do nosso hálito e das nossas imparcialidades. Completa, a matéria que constituimos é a prévia, a clarividência do passeio enfático e selvagem, a grande cavalgada sem rédeas, a carruagem que desvela o firmamento sedoso e fraterno do veludo.

O relógio é o subúrbio dos acontecimentos.

Não olhamos para frente, apenas para
as mechas e os tremores: grito, coice e trova.

Surjamos
como o sofá vermelho em couro
vermelho em rosa líquida
façamo-nos em facas
em pianos infernais
em pequenas mãos pegando fogo
buscando um motivo sequer para afastar-se
de suas irmãs e de seu copo ambíguo e repleto
de corpos, frugalidades e anseios.

Corramos sem destino. Façamos
o errado, o lastimável
o cru.

Façamos a nós mesmos e sejamos sós.

II.
La Petite Morte

No chão, abríamos as várias portas
comungando da rasteira batalha.
No alto, as estrelas suspiravam tortas
confusas entre corpos e navalhas.
Quantos momentos existiram no início
de tudo, naquela explosão primeira
que não se encontram nesse nosso vício
de guerrear entregando a alma inteira?
Ao conquistar, não ousamos cuidado
no confortável solo de campanha
e crescemos, de estado em estado
até resultar naquele que ganha...
Mas logo se vê: não há vencedores!
Apenas dois mortos, rindo-se em dores...

Passagem - horizonte

A casa é sempre tua, minha flauta macia
meu sopro de ciúme e cotidiano.
Sabes como é simples nosso lar enluarado
mas também como são tristes as impressões
embaçadas sobre o mar.
Então bebamos, então partamos
matemos a mesma coisa do
mesmo jeito e no mesmo lugar apenas
recebendo com outros olhos nosso encanto destoante
e desarrazoado ---
o número dois como eterna busca: antropomórfico palíndromo
grávido de confusões.

A dúvida é apenas uma acha
o fogo é
aquilo que trocamos ao nos entregar.
Quantas escolhas não podem ser
feitas por
razões as mais estúpidas...

O brilho como um simples sonho de espera
perdido nos muitos
corredores
da palavra não.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Milkshake

O milkshake colorido descansou na mesa após
a perigosa viagem sobre a bandeja.
Minha língua roçava os dentes para revelar
algo que atraia
o orvalho teimoso de seus olhos -
não sabia bem ela o que fazer
perguntava mas sem querer ouvir
as respostas tão carnais.
Olhou para baixo e confirmou
o óbito
que eu lhe oferecera
assim como eu havia feito
quando ela me entregou o mesmo final
poucos meses atrás.
Nessa dupla morte, eu sorri enquanto ela corria.
Sorri pois eu já entendia, ela
apenas sonhava.
O apagar de velas...
Sozinho, peguei o milkshake intocado e atirei-o no lixo.
Paguei a conta e pensei se precisava me olhar no espelho:
conclui que não.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Placebo

Inquebrantável como a feiúra

inquebrantável
como as lendas de uma cidade
onde não há carros
onde não há postes

em trevas

é a sede
é o espaço
o silêncio necessário

desse lodo
nos ralos

o escoar infantil da urina
que explora a rua
pequena

o escudo
escuro
de um quieto coração.

As vísceras quentes
são palavras inteiras
conquanto
bastardas
perdidas

como um vestido pelo avesso
um livro sem os verbos
o enigma
da tarde, que espera
mesmo sem jamais querer saber
ou chegar.

Sólido
e carnal
bosque noturno e imenso
eternamente aguardando uma matilha
filha do vento
e quiçá também aquela semente
o verde brilho
que não desejou
ou não sonhou
outrora.

Esmeralda! teus pensamentos minerais
tangem as garras
do travesseiro apertado
contra as têmporas, contra
os vícios

o medo

puro

que não cabe
por não ter origem -
porém
nada o exclui
de existir.

Rarefeito ar gelado
raro efeito da solidão
espinhos residem embotados
e o cacto
floresce em tons
impressionantes e despreocupados.

Entretanto
faz-se mister lembrar
da fome
lembrar do osso que sobra
após a refeição farta
e que queda abaixo da cadeira
servindo ainda
como esperança
como seiva
como instrumento.
O estômago como único sexo. ---


O oco atrás da gargalhada
o incerto que perfaz o vivo
o oráculo que acalma a fera
o corvo que finge ignorar a ceia
o morto que espera soprar suas velas mesmo imaginando

a putrefação

o funil desesperado e vital
do poema

áspero lábio do baldio

peregrino
arquiteto
sereno

compondo os tijolos
elaborando a beleza
na medida que sabe que apesar disso
o mármore é tão frio

e o novo país onde habita
carece de hino, bandeira e inventores.

Descansaria, apenas, a pastilha entre os dentes
e a língua, íntegra, mas sem previsão?

Ou resolverá a rocha seu empasse com o vermelho
e tenra
permitirá a raiz
madura e elementar
atualizar-se diante do macio?

Apenas que não se faça
da verdura
uma árvore nua
apesar da sua
hermética
carapaça em metal...

domingo, 17 de maio de 2009

Geométricas






Poema mofado

Dói-te este trevo o qual aperto
(destino que grita entre os dedos
daquele que julgas ser certo)?
Sentes na língua o beijo azedo
que tu sempre terás por perto?
Cuida que o dia acabe cedo
ou não te tardará o costume
de pensar do sol fiel amigo
sorrindo o seu célere lume
da juventude sem perigo.
Contudo, não há um imune
ao vulto escuro do inimigo
no qual todos nós nos tornamos
ao acordarmos para a noite.
Sim, é breve aquele sol que amo
o afago é cúmplice do açoite,
o amor brota de um fino ramo
que cede ao peso da sonoite!


Acorda logo para o escuro
antes de pensar tudo claro -
abraçar-te-ei no futuro
sabendo do custo mais caro
que é nutrir um amor puro
sem para outro alguém ter faro?
Vive então a nobre penumbra
de quem não magoou ainda,
de quem se entrega e se deslumbra
e quer da vida uma eterna vinda,
sem ter da nuvem que obumbra,
sem ter uma mera idéia finda.
Mas faz logo com que se note
essa sombra que irá baixar
tão cedo uma peçonha brote
nesse nosso pequeno lar
e de chofre teu peito volte -
vazio - a buscar um novo ar.

domingo, 10 de maio de 2009

(três haicais feiinhos)



Um pio na janela.
Andorinha, que demora!
Colho o sopro dela.







Molha-me o teu céu:
noto os is que me esqueci
de por sob os pingos.







Um âmbar no galho,
mero concreto da flor.
De quem é a lágrima?



terça-feira, 5 de maio de 2009

Não consigo escrever

não consigo escrever
como o solo não evita o raio
a vida não percebe a lápide
e o caçador não nota que alvejar a presa
é apenas
um dos começos de uma história.

não consigo escrever
porque não me prescrevo talento
porque o arcoíris passou de deusa
para fenômeno para bandeira para pandemia
porque tudo que se fala tudo que se cheira tudo que se excreta
tudo que se sente no orgasmo de olhos abertos e boca fechada
não está repleto
não está inteiro
como pensaram os roteiristas.

apenas repito
que não consigo escrever
como se repetem minhas células
minhas cédulas minha crédulas digitais
como se deduzem fórmulas a partir de genitores de bigode
para findar em resultados
infinitamente redundantes
gerações que ora se barbeiam
ora não
de suas intenções.

não consigo escrever
pois não há um assunto
não há uma capacidade uma potência ou sequer o tempo
a estação propícia
uma arma que dispare
através das brancas páginas que residem sob minhas pálpebras
e revele enfim
que em nada mais existe um sentido
exceto nesses cinco ou seis minutos
que me restam para amar
ou para dormir.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Do peso que a luz nos traz

são seis e pouco da matina.
estou de preto.
dirijo para onde todos os
carros
devem ir.
nada para o café da manhã
um cigarro e dois
daqueles comprimidos
que costumam me
fazer feliz.
há a chuva no solo
caída em outras sessões
e o sol no céu
novo
colhe insetos extásicos assim
como a luminária que dorme
bem acima de
mim.
sinto a luz pesar em minha camiseta.
o rádio fala Caetano
e às vezes idiomas os quais
conheço mas que não
compartilham
minha maternidade.
na intermitente linha
mediana
onde mancam os passantes
piétons sem definição
tento imaginar meus olhos
minha boca meu
umbigo meu sexo em
cada redentor
da nublada
travessia.
mas no reflexo vejo apenas
aros em plásticos
nariz embaixo, e
o bigode
pendendo a frente
de qualquer completa
satisfação.
onde
contrairei
minha calada
residência?
que escada para elevar-me além
do fosco teto
sob o qual
expectoro ansiedades
e frustrações?
o aguardo, como a doença, consome-nos
sem vermos.
apenas imaginamos
a sua tóxica fumaça, suas
magras
garras
a nos alcançar
galgando o degrau
e rasgando com um sorriso as
empoeiradas
cortinas do palco.
transito longamente
e não sem severidade
na minha estéril façanha
cotidiana.
inalo a brisa do mangue
o espirro da bela
pobreza.
o que fazer senão acelerar
possuir
tardar
ao se dar conta de que o mundo
finge
que não é o mundo que
finge
e ao ouvir da esfinge
que o fingidor
na verdade
é você?

Impromptu


Aquela menina que me desperta
como uma prece que na noite se grita
na óstia da língua me envia o alerta
que em mim deposita a fé mais contrita.
A sua estrada, dantes tão estrita
não mais carrega uma natureza incerta
e na fogueira que meu corpo atrita
com os seus dedos meu destino aperta.
Porém, sua via não passa de brita
(apesar de finalmente ter certa
a vida que nela quer ver escrita)...
Agora, não importa se estás aberta
já vi tua alma - tão fria e restrita!
Serás sempre longe... a sós e proscrita.

sábado, 18 de abril de 2009

Talvez Macbeth

as árvores que andam
concêntricas ao
castelo recheado de dúvidas.
o rei que em pé
boceja
pois de fato não reconhece
as razões de seu trono
apenas as
dimensões de seu
tempo e os espinhos da sua coroa.
avançam os galhos lá fora
e por hora
a rainha ainda lava as mãos
pois deposta não servirá
aos propósitos da floresta.
e ri o rei cansado
no jardim
hedônico
de suas vontades
e das suas mais variadas
e fugazes
flores.

terça-feira, 31 de março de 2009

Recifeu

ora a lábia
dedilha a senha
lê-se deus no caminhão
minha mão em minha mão em minha mão
os céus...

ponte
pombo
....................pista

piche......................poste
...........porra

........puta........................... prego

placa


fleuves sem rima ou
.... solução
só
..concreto ....e sim
..................óbolo ou oróboro ou bórico ou bóreo ou mesmo bosta...
sangue
.... no sangue no
..semáforo
sangue no....
..........cartel sangue na sarjeta ................ sangue
no apartamento sangue
......na sala.... do divino na rica ..gruta do suí.no
................na greta fraterna da menina que esperará
além
......de si e além de sangue ....no


aquém

ninguém
..............


........pelo amor a si
amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem
e a si amem


e a si amem e a si amém

....................volitivo olvido ......amém...
minhas praças meu fígado minhas cinzas meu nome minha mentira meu comprimido minhas carroças meu olho direito minha foda meu léu meu vômito
minha menina meu suor minhas pernas minha morte minhas fossas meu desalento minha pança meus vinte minutos meus vinte dedos meus vinte anos minha ira meu credo meus pelos minha sede meu carbono meu mangue minha morosidade meu vácuo minha vida minha avenida minhameuminhmeminm eu

segunda-feira, 30 de março de 2009

Metonímia

Após tantos muitos anos de mim
no meu violão eu ainda percuto
os mesmos velhos solos, e me escuto
consciente que sôo sujo e ruim.
Por que repito uma mesma sentença
de quando nem me sabia uma pessoa..
É só o acorde que escuro ressoa
ou eu que carrego uma tristeza imensa?
Nos fretes, nas cordas sublimo uma cura
um escape da ânsia de ser quem eu sou.
Soubessem aqueles que vêem meu show
da minha melancolia mais pura
haveriam de rir de sentimento
tão néscio vindo de um mero instrumento.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Díptico no compartilhar da aurora

I
Um sorriso suspenso anota indecisões,
curta-metragem dos sentimentos passados,
e a beleza propaga um assobio cansado
na macia folhagem de outras estações.
É ainda distante que se repousa a tarde,
uma piada muito longa para se rir -
mas é sem pretensões que todo riso arde,
assim como o amor só existe após partir.
E a silenciosa ética desse arrebol
nada interfere nas estradas do desejo:
ambas conferem significados ao beijo
sob o diário neologismo do sol.
Não há uma fotografia mais natural
da companhia - pura, e vazia de mal…

II
A nossa hora
a gasolina
daquela aurora;
minha menina

se aquele dia
soubesse inda
como se lia
a tua vinda

que qual sereia
soltava árias
para a areia...
Éramos párias

éramos vários
na superfície:
um corolário
ou uma pernície?

Aquela seda
nos acolhia
e tu tão leda
que se encolhia

entre meus dedos
ante o Atlântico..
Dentre meus medos
o mais titânico.

sábado, 21 de março de 2009

Soneto em tempo

Despido no ínterim das paixões minhas
olho o ponteiro de um relógio estranho
que mediante os seus braços de estanho
informa-me justo as horas sozinhas.
A vagareza dessa sua jornada
apenas transmite uma calma sem rumo
qual o fruto que lento perde seu sumo
ao sofrer do sol na exposta sacada.
Mas ao a nudez da alma me estorvar
junto ao sonoro roer dos minutos
percebo que já não desponto o luto
que ainda pensava vivenciar.
Visto-me e de tempo não mais preciso:
viver só é uma questão de sorriso.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Sonetilho lunar


Lupina,
de chofre
menina -
que sofre

dum louco
mister:
se pouco
mulher




termina
em ser
ferina,

sem ver
mais ávida
a vida.