quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

domingo, 22 de novembro de 2009

Nunca soube como escolher o que publicar aqui, nunca existiu critério. Apenas uma vontade engraçada - e cá estava. Vontade esta logo seguida por um sentimento de incompletude, de irrealização, o qual me sabia após cada novo poema exposto. Este, fez-me modificiar extensamente todos os escritos, alguns quase por completo, outros ainda muitos meses após sua primeira versão.

Só muito tarde, quase hoje, é que notei a razão que me fazia decidir tanto o que publicar, quanto o que modificar: tudo aqui, fim de contas, é igual. Tudo se pertence. Tudo é unido; cada letra é a mesma da próxima letra, que é a mesma daquela que acabei de escrever nesta linha.

Sem saber direito, aos poucos destilei um amálgama, um colorido pleonasmo.

Desta forma, por um ano decorri sobre infinitos aspectos de uma mesma coisa: cada rima aqui escrita não passa de repetição. Cada poema não é uma granada, nem sequer é um poema. Nem meio-poema.  Tudo que atinge sua vista, cada cor, símbolo e brilho: talvez isto, sim, tudo ao mesmo tempo, seja um princípio de poesia.

Noto, também, que a linha que costura por entre todos esses versos não mais prevalece. A confecção deste projeto, apesar de, a meu ver, inacabada, precipita um insistente fim. E aqui o declaro, então: fim.

Mas lembro: caso queiram ler, façam-no sem atenção. Apenas vejam cada frase como irmã da outra, cada vírgula como uma célula de um organismo. E tentem não se entendiar demais.

domingo, 8 de novembro de 2009

Sinfonia oca: Α

Cortinas numa janela escondem o passeio
de alguém sentado
em rodas -
brincam nas palmas as moedas
da ilusão.

O céu a chuva o rio
o riso a flor a morte
- cuidado,
muito
cuidado

com as farpas
do carinho

com as mágoas
que cosem

o véu
impuro
do caminho...

Sentem os calos?
Vocês sentem
os calos
nos dedos
na cara
na calma
no resto?

Apáticos blocos de concreto
aventurando-se a ter alma---
conhecendo o mar
conhecendo o amar;
mas sem saber
como
nem
o porquê

(apenas que é
em vão).

Sinfonia oca: β

Mistérios de soslaio: lembrança
daquelas coisas
que vão mas que
voltam
aonde sentem que nasceram:
bichos
encouraçados, bestas
no desconhecido
surfando as ondas
do seu próprio poço:

vão e
voltam

vão

e voltam

vão

e

vol

tam

-

leigas, lógicas
lésbicas -

no fundo do poço há ondas:
esses bichos
que sempre
voltam.

Sinfonia oca: Γ

O punhal clama por um brinde
desenha palavras de criança
e revela o nome da droga.

Um plástico saco se joga -
a mente voa e no vale dança:
folha que sua árvore prescinde.

Garoto; mortalha na cama
os seus pés no solo pregados...
alfinete, inseto, cortiça.

Sexo na areia movediça:
e a mariposa goza o fado
de um último círio que a chama.

Sinfonia oca: Δ

Vejo um caubói que sobe o morro; secos. O seu cavalo trota, patas secas pingam nota após nota. O dia é pequeno, o mundo quente, a estrada íngreme, não há previsão de alívio todo o amarelo ali sufoca.

Vejo a cauda do rato que escapa, as unhas do rato que escapa, o grito do rato que escapa;

vejo a flor que nasce e é cortada, a flor que nasce mutilada, a flor que rasga e que fronda pelo avesso;

vejo o rio, teu rio meu rio, profusão de água: o rio onde se nada, onde não se é nada.

Nada.

E vejo a morte,
a morte em sua banheira, a morte num quadro de giz, a morte no gesto da embalagem, no estigma do berço, na gargalhada estranha no distante corredor; no clima que sufoca, no amarelo íngreme que é toda a previsão de alívio, na estrada quente, no mundo que é pequeno como o dia.

E é dia. Seco.
Nada.

Dia.

O caubói apressa o passo. O cavalo cansado transpira a espuma do mar. O céu é vasto, depois da aba do chapéu. O morro acaba. A brisa aponta para a descida.

Arfa.
Cospe.

Ri:

não foi
desta vez.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Serotonina

Surte efeito o bilboquê
na criança
que sozinha brinca
sob meus cabelos;

ela, ao jogar
na desavença entre
os seus
e os meus
brinquedos, escolhe dar-me
espanto

ou
contentamento:

a tirania do
seu sorriso
é o que
decreta a minha
própria
fotografia

na incerteza
do momento.

Caso a esgrima de suas
artes
provoque-lhe
qualquer sorte
de angústia ou medo
em mim se abate logo
um calado alarde
um gesto
vazio

um frio
arquear dos meus
artelhos...

E se por vezes seu pequeno
coração
da vela acesa
constrói o gelo
faz-se mau-tempo:
bicho preso
pausa quente, casa escura...

tempestade-estado sem uma possível
destinação.

sábado, 17 de outubro de 2009

Dentro de mim não há país

Já tive o velho coração
das cartas numa gaveta

e fui miúdo:
fino traço
ante a garganta do espaço.

Nublados dias vindos
colhi relâmpagos

que possuí

como a vida
na fácil esfera
do aquário.

Sob a chuva, amei

por diversos nomes
coloridos:

goles
ruas
rimas

libido;

e senti
ora martelo
ora madeira
que nos condensamos
antes mesmo de entender:

no curto mapa nosso


o mundo
todo

sem, contudo
país haver.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sala de espera

A sala é pequena e as cadeiras desconfortáveis, a televisão transmite notícias com interferência e cinismo, o reinado das revistas de alguns anos atrás ainda não terminou: lentamente se dissolve no café frio o calado açúcar da espera. Uma pequena janela grita pedaços de sol que se espalham como cacos de vidro partido pela noite. O chão está limpo e nesse espelho eu me enxergo vestido como sempre, penteado como sempre, olhos abertos como sempre, estático como sempre. Sonhos presentes como sempre - lustrada parte da mobília. Escuto chuva lá fora, escuto chuva aqui dentro: a natureza é uma rádio puramente comercial. Na pequena copa ao meu lado há comida espalhada no balcão, no bureau em minha frente um protótipo de andróide, no canto dos meus olhos a verdade que não entendo. No advento de meu nome, estalo os dedos, respiro o frio, respeito os ausentes, vago até a branca parede do corredor. Sigo austero, sigo calado, sigo meio morto, meio ingrato, meio destemido, meio aço, meio água-viva... todo um rolo-compressor. No novelo de lã dos meus dedos entusiasmados deposito inteiramente as vontades daquelas horas patéticas, dos resquícios das eras, das magnitudes do vácuo, e galgo com a angústia do leopardo, velho e faminto, no momento em que encosto, no momento em que me comunico com o calor pesado da maçaneta
de repente, o filme pula para os créditos e as cabeças confusas projetam cordilheiras engraçadas na tela.

Da hipocrisia himenal

Quando passas na rua, pia e augusta
com todas as chagas de quem não ama
vem-me o sarcasmo de um sorriso às custas
de teu próprio sorriso em minha cama:
como te consegues fazer em dama
tão serena e austera que até assusta;
onde escondeste tua incrível chama
que queima quando a carne tu degustas?
Teu olhar que agora denota um basta
e se abaixa sem se entregar à luta
acha que, ao se fingir, o fogo afasta;
mas não és a única assim astuta!
Muitas, como tu, se dão a labuta
de caminhar como uma santa se arrasta...
Preocupai-vos tanto em não serdes putas
ou tão-somente em parecerdes castas?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Depois

A seda do cabelo
suado
profanando a palidez
da fronha

os gestos
pela metade

o riso
frouxo
mas delicado;


- eu te amo...

alguém conta
em segredo
com os olhos
apertados.

Uma mão
busca a outra:
os dedos trocando
os códigos
sutis
da cumplicidade.


- Mais que tudo...

responde o eco
e os pés se encaixam
magnéticos
em meio ao berço
bom
do escuro.

Macio
chega o sono
e faz em mármore
aquela cena:

esculpidos
um no outro

complementares

necessários

naturais

vazios:

dois pequenos
animais
no frio.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A vendedora

Passeando por um
país
onde não entendo
as placas
não entendo as ruas
não entendo, na verdade
porra nenhuma -

estou perdido

e irritado.

Dobro esquinas, macaqueio informações
interpreto
mapas;

nada.

Inconsolável
passo na frente de uma loja
e olho demoradamente os números
dos preços
meus últimos amigos
calados e nobres como toda
a matemática.

No interior
da loja

uma jovem
vendedora
está de cócoras.

Não deixo de notar que
ela
sem saber
expõe o engraçado
vale
entre as formosas fatias
de seus belíssimos
glúteos.

Ela se ajeita devagar.

Carinhosamente

olha para trás.

Me vê.

Sorri.

Eu sorrio de volta
quase que
em
agradecimento.

Logo
ela continua, vendendo

e eu continuo
um pouco menos
perdido.

Interessante como
mesmo uma bunda
às vezes
é um mundo.

Ou vice
versa.

Kitsch

um gatilho iluminando
todo um continente
de possibilidades

a morte, o som
escuros
como o último útero
impregnado.


é manhã
a mais

tenra manhã

mas
o derradeiro projétil
já percorre o corpo

lento
esperto

um besouro
carnívoro

e paciente:

a unha arranha o quadro
e o mundo se contrai sob seu domínio inconcebível.

ainda bem que há o cinema
americano
os sanduíches os sorvetes os bichinhos
de pelúcia ---
toda, toda essa
tralha

para nos
igualar.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

"De costas" ou "El gran masturbador, Dalí, 1929 - óleo sobre lienzo"


pequenos
órfãos
detentos
órgãos
sob a pele -

amores.

quatro câmaras
os comportando

mas quantas flores

sem estação?

pelo visto
nada é apto
e
há muito
mais xisto
que o previsto
hirto
espaço calcário:

um vaso todo
lado de dentro.

os dentes
sonham
fadas distantes
sedentos
pelos ossos
sobre ossos

os pelos
nossos

ambos fossos
fundos
frutos -
sementes tardias
elaboradas com
um
riso exausto.

meu leito
arco firme
contra a noite
que calcula tantos
quando estou só

a seta
que inveja
o branco
do nascente:

entre as unhas
extrai-se o rubro

e entre as coxas
nossas próprias
respostas.

pena
quando surgem
estarmos
de costas.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A corrente do dia

na varanda

o cigarro aceso
olhando a rua em marcha.

como a brisa
que refresca
dois ou três poemas
batem leves
na porta
e me entregam as cartas
já velhas e marcadas
conquanto valiosas
da contemplação.

vejo folhas
alaranjadas
e bicicletas
muros
e mesmo
exércitos, quem diria.

outros são bolhas
ora transparentes
ora
coloridas -

até chegam a estourar
bem ali diante dos
meus olhos

arregalados.

mudo
como somos
nada efetuo
até que o momento
pano muito curto
se encerra.

ele acaba, eu
acabo

e também o cigarro
acaba.

arremesso-o:
seu corpo sofre
e cai
dilacerado
no andar inferior.

sei que alguém o achará
e herdará
um pensamento repleto
de dúvidas e tantas
outras
coisas estranhas.

mas ai
já não é mais
problema meu.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Do outro lado

Quando primeiro te vi
--- tão hirsuta a tua face!
pensei logo nas roupas novas
que exibias sem notar.
Logo, ali me estacionei.

Não deixei pesar teu nome
mas adverti - como vai?;
e ao virares como máquina
sabia que já julgavas
todo esse meu avatar.

Nos espaços do sorriso
falso que me encomendaste
imaginei-me entre o préstito
da tua resiliência -
tuas mãos me carregando...

Portanto, conheci a tumba
sob o modelo de esquife
dos teus óculos-escuros.
A tua resposta tão breve
meu lacônico elogio...

domingo, 23 de agosto de 2009

Ela

Agora
que nossos dados
nunca acertam a soma;
que nossos
isqueiros
curtem outros bolsos e
ignificam
outras chamas

e o provador
de roupas tão
caras
que teu peito
insistente enquadra
redunda
o nada
entre reflexos;

agora
que somos dois
encarando um ao
outro -
olhos trancados
do lado de fora;

que não escolhemos mais simpatias
para acalmar
as feras
no zoológico
de nossa antecipação

e os vagos
gráficos
da nossa íntima
economia
jazem, francos
como o outono.

E nosso idioma
não resiste
à peçonha
das heras:
flora do dialeto
que plantamos.

E as lágrimas
não têm mais o chumbo
que outrora
algum valor
lhes dera.

Agora

nada
mais

nos

ela.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Remember when we were in Tokyo?


- The robots-
All the stars:
toy plastic cars
that urge to come and go.

- The tragic
novelty
of neon blood
stains.

An eulogy
over a pile
of darkened broken bones

the misfit of
glass
in the break of
a smile.

And there is
flame
blue green white
flame
lighting the cigarettes
of every
well-intentioned
devil
that chooses to walk the street, every
devil
that chooses to laugh
instead of surrendering
to the meditating light bulbs
of the endless corridor
where all the love
turns into
blurred make up
and
tired handwriting.

The wind is high
fresh
and sound.
The flesh is made out
of Ginza’s
shopping bags.

The quilt
of the mind
and the hammer
of the
heart
are
fed
eternally
to the electricity
under my knees.


-The haze-
Your breath
perceived the incoming aircrafts
stopping
in prayers
for every fraction
of their noisy flights.
Every atom of your will
gathered in peace
defeating the beauty
of the static sun.

My hands
warm against your want;
our lips
cotton dreams
woven in a red and white
unrehearsed
play.
The afternoon spoke
slowly
whispering
revealing jokes
of unthinkable
blasphemy.

The careful leaves of the sakura
lifeless, fearless
sheets of grace
hovered as the cranes
who love their nests.

Both our eyes
both our hearts
knew the matter
- living matter
that delivers chills
like childish kills
to our back
when the city's
furious kiss
hits the
unwary snow.
-The saints-
In the funny
peaceful temple
we drank water
so it would
purge the soul
(even though
all our thoughts
meandered
turning old
the cobblestones
of loneliness).

The happy animals
who roamed free
asked with
humble eyes
while
they sat about -
when will the firmly rooted heart
wither
drowned by the fearful tide
of the cutting night;
when will the hands become useless tools
meaningless weights
instead of
cosmic knots?

Pass the atmosphere
where the air is brief
we could be forever
wrapped in lightness
and white
but in here
despite the prayers
the clapping
the incense
the faith
- plus, the
firm demanding
of the adamant
earthquakes -
all we can be
is a half.


- The crow-
A bird
against the light;
the streets eager
for the easiness
of meat.

No peace -
nothing in the pace
of history.
A centipede
with a million eyes
roams
watching every one
of my
infinite sides..

Is it pain
is it sadness
that I speak to
when I wander
right onto
the photograph
of your
warm reeds?

- The river
keeps on
not unlike
infinite swords.

My wrists
ache
under names
I can’t regret
and my walls
all carry
messages
in complicated
ideograms.

There are so many faces
in only one smile;

so much waiting
in an airport
where there are

no landings

and where
steel concrete iron wires glass hurt

compose the best
of a confused
whilst everlasting

landscape.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Sono sobre rodas

Cidade da noite, apetrecho
do asfalto celeste. Lua volante
blues atlântico no rádio
e um onírico acelerar
sobre o carbono e o enxofre.

Insetos estelares no
parabrisa do edifício.
O on/off do meu a/c.
Velocidade prostrada.

Acostamento com appeal:
manhã. Surge a alvorada -
Alva Rd. -, viagem de
carona e solidão.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Madrileña

primeiro: houve o encanto
de seu corpo
teso -
não sei dizer!

algo vegetal, macio
mas com um certo vermelho
e, claro
no embrulho
de sorrisos incompreensíveis.

logo: sua parte
nas entrecenas

a volúpia branca
de um mero mastigar -

em cada gesto um
gato

lento

lascivo

notívago

a progredir...

enquanto os olhos
bolasdegude
me corrompiam

sua língua
ecológica
se poupava, mas
ardia
encrispada
como uma lagarta
quando sonha
em nos queimar;

músculos
todos cordasvocais:
o rondar do touro
ao farejar seu
próprio sangue -
orando pelos aplausos
de um mísero golpe.


nunca soube eu antes de beleza
rica, oculta

tão inseto;

brumas lúdicas -
cordabamba lúbrica
todas esquinas numa enorme

cidade-mulher.

domingo, 9 de agosto de 2009

Um pai

um pai
é tudo aquilo
que não é vento:
nuvem tranquila
que nunca cai.

como algo pago
já se faz nosso
independente;
além da vista
a ser profundo
e presente:

um pai
sabe seu filho
como um deus
maltrapilho
ama o seu
pequeno mundo

e cada voto
de seu medo
(que revela
entre os lábios
na noite quente)

é uma rima
das mais sábias

ou uma prece
macia e bela
clamando pelo
filho doente:

cabe a ele
triste ou ledo
ser o punho em riste
que nunca falha
e sempre faz ---

coubesse em mim
um todo e meio
queria, assim
o bom império
de ser um pai...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Reflexo

sob as ondas
um castigo
recôndito laborioso:

não
há preces
na fogueira
que queima com meus arbustos

secos galhos que me compôem.

a dúvida, sempre primeira
mais humana entre
todas as
quimeras.

nossa mão
estranha que explora
o próprio ventre:

o calor
das épocas...

quem o possui
e quem
lhe
pertence?



entusiásticas
sopranos
altas esferas da minha
identidade

acho
que ainda
um dia
sonharei
que sou eu mesmo
de verdade.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Ars longa

Vejo um quadro e sem notar me retiro
neófito com seu inútil olho -
vago um momento e logo me recolho
distante do mundo um completo giro.
Outras eras me sabem outras artes
mas nada ao certo me atinge ou apraz...
Longe, ignoro as mais novas mas assaz
lembro-me daquela outra que destarte
não tive o senso de sorver inteira!
Súbito me volta a obra abstrata
e ela em tantas trovas tão bem me trata
só para se afastar tão cedo eu queira
provar em sua cor a doce tinta -
dura moldura do que quer que eu sinta...

Neolitizando

Meio-dia na estrada humana
rabos em
carros e aviões.

A esperar a cancela
que não abre ou incide;
o sol exato no
ponto mais enxuto
de destruição:

o metal do cardume
belicoso
reverencia
o agressivo sílex.

A angústia infinita
nos cílios medonhos
abruptos ocasos tristonhos
dos neandertais em

seu rugido mais blue

sua segunda-feira mais cu

pertencendo sem ser
alguém..

quem é?

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Passagem - manhã

Cada dia da semana a cloaca divina lança o reciclável ovo da manhã
abrindo margem para a refeição sonolenta.
Cada dia da semana
a família perturba a superfície da infância
e cada cão cada gato cada cisne
canta com os gestos
triviais de um desconcerto -
velho conhecido.

Se somos ou se sabemos
não passa de
uma
meia questão.

Tribos cinéfilas, refeições
sincréticas
o trigo em um
o iôiô de um gozo
vínculos de doença
sirene:
exercemos a expiação
durante o breve alívio
da ducha.

Vida como ser marginal desse
perecível instrumento de calor;
infinita espada
córrego despreendedor
imensa
fatia daquilo que esperamos sem nos darmos conta
sorriso
impossível por invísivel
ser, presente e
alvo, óvulo
das sete pernas, cada qual alimentando-se
dos seus cíclicos frutos
frágeis como Aquiles.

Prisma do encontro
prisma do profano
prisma e culpa
insaciável
reincidente
pequena mentira que arqueia
a clara língua solar.
Arquivo natural, cristal inestimável e sonoro
dos antigos nomes
sem qualquer origem
apenas
inspiração.

E expiração.

Passagem - tarde

Cavam os pés e
pendulam os sinos:
mil e um inventos:
nenhuma trivialidade
esclarecida.

Evidentemente a sede já é larga
para o seio parco ---
a lágrima barata
que se arrasta no meio
de algo metade cara metade coração.

A simetria
do externo
e o inimaginável do eterno
relutantes asas
nas nossas frágeis costas
nos nossos ínterins.

Sete, também
são as passagens pelas
quais acalmo e nutro cada giro
cânion e
cavalo, tão amos quanto cativos
da caixa elementar
invólucro
do desconhecido mundo-eu.
Mundo-nós.

Sementes pequenas dão
as caras
aqui nos meus dedos do pé -
a marcha empilha
as flores serenas
gradualmente descoloridas.

As pétalas são como chamas
fósforo puro da fertilidade.

A criança idiota passeia incerta
trovejando a pisada bamba.
A sua casa é grande
insípida
boa;
cai de joelhos e de repente decide rir.

Passagem - noite

I.

Sonora e cadente, a tempestade é nossa memória de um chuveiro: somos as pálpebras beijadas, somos a falta dos outros, somos a lua quando está numa canção e a estratégia mais leve de uma mente inquieta e feliz: a água é saliva, o vento é um soluço do nosso hálito e das nossas imparcialidades. Completa, a matéria que constituimos é a prévia, a clarividência do passeio enfático e selvagem, a grande cavalgada sem rédeas, a carruagem que desvela o firmamento sedoso e fraterno do veludo.

O relógio é o subúrbio dos acontecimentos.

Não olhamos para frente, apenas para
as mechas e os tremores: grito, coice e trova.

Surjamos
como o sofá vermelho em couro
vermelho em rosa líquida
façamo-nos em facas
em pianos infernais
em pequenas mãos pegando fogo
buscando um motivo sequer para afastar-se
de suas irmãs e de seu copo ambíguo e repleto
de corpos, frugalidades e anseios.

Corramos sem destino. Façamos
o errado, o lastimável
o cru.

Façamos a nós mesmos e sejamos sós.

II.
La Petite Morte

No chão, abríamos as várias portas
comungando da rasteira batalha.
No alto, as estrelas suspiravam tortas
confusas entre corpos e navalhas.
Quantos momentos existiram no início
de tudo, naquela explosão primeira
que não se encontram nesse nosso vício
de guerrear entregando a alma inteira?
Ao conquistar, não ousamos cuidado
no confortável solo de campanha
e crescemos, de estado em estado
até resultar naquele que ganha...
Mas logo se vê: não há vencedores!
Apenas dois mortos, rindo-se em dores...

Passagem - horizonte

A casa é sempre tua, minha flauta macia
meu sopro de ciúme e cotidiano.
Sabes como é simples nosso lar enluarado
mas também como são tristes as impressões
embaçadas sobre o mar.
Então bebamos, então partamos
matemos a mesma coisa do
mesmo jeito e no mesmo lugar apenas
recebendo com outros olhos nosso encanto destoante
e desarrazoado ---
o número dois como eterna busca: antropomórfico palíndromo
grávido de confusões.

A dúvida é apenas uma acha
o fogo é
aquilo que trocamos ao nos entregar.
Quantas escolhas não podem ser
feitas por
razões as mais estúpidas...

O brilho como um simples sonho de espera
perdido nos muitos
corredores
da palavra não.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Milkshake

O milkshake colorido descansou na mesa após
a perigosa viagem sobre a bandeja.
Minha língua roçava os dentes para revelar
algo que atraia
o orvalho teimoso de seus olhos -
não sabia bem ela o que fazer
perguntava mas sem querer ouvir
as respostas tão carnais.
Olhou para baixo e confirmou
o óbito
que eu lhe oferecera
assim como eu havia feito
quando ela me entregou o mesmo final
poucos meses atrás.
Nessa dupla morte, eu sorri enquanto ela corria.
Sorri pois eu já entendia, ela
apenas sonhava.
O apagar de velas...
Sozinho, peguei o milkshake intocado e atirei-o no lixo.
Paguei a conta e pensei se precisava me olhar no espelho:
conclui que não.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Placebo

Inquebrantável como a feiúra

inquebrantável
como as lendas de uma cidade
onde não há carros
onde não há postes

em trevas

é a sede
é o espaço
o silêncio necessário

desse lodo
nos ralos

o escoar infantil da urina
que explora a rua
pequena

o escudo
escuro
de um quieto coração.

As vísceras quentes
são palavras inteiras
conquanto
bastardas
perdidas

como um vestido pelo avesso
um livro sem os verbos
o enigma
da tarde, que espera
mesmo sem jamais querer saber
ou chegar.

Sólido
e carnal
bosque noturno e imenso
eternamente aguardando uma matilha
filha do vento
e quiçá também aquela semente
o verde brilho
que não desejou
ou não sonhou
outrora.

Esmeralda! teus pensamentos minerais
tangem as garras
do travesseiro apertado
contra as têmporas, contra
os vícios

o medo

puro

que não cabe
por não ter origem -
porém
nada o exclui
de existir.

Rarefeito ar gelado
raro efeito da solidão
espinhos residem embotados
e o cacto
floresce em tons
impressionantes e despreocupados.

Entretanto
faz-se mister lembrar
da fome
lembrar do osso que sobra
após a refeição farta
e que queda abaixo da cadeira
servindo ainda
como esperança
como seiva
como instrumento.
O estômago como único sexo. ---


O oco atrás da gargalhada
o incerto que perfaz o vivo
o oráculo que acalma a fera
o corvo que finge ignorar a ceia
o morto que espera soprar suas velas mesmo imaginando

a putrefação

o funil desesperado e vital
do poema

áspero lábio do baldio

peregrino
arquiteto
sereno

compondo os tijolos
elaborando a beleza
na medida que sabe que apesar disso
o mármore é tão frio

e o novo país onde habita
carece de hino, bandeira e inventores.

Descansaria, apenas, a pastilha entre os dentes
e a língua, íntegra, mas sem previsão?

Ou resolverá a rocha seu empasse com o vermelho
e tenra
permitirá a raiz
madura e elementar
atualizar-se diante do macio?

Apenas que não se faça
da verdura
uma árvore nua
apesar da sua
hermética
carapaça em metal...

domingo, 17 de maio de 2009

Geométricas






Poema mofado

Dói-te este trevo o qual aperto
(destino que grita entre os dedos
daquele que julgas ser certo)?
Sentes na língua o beijo azedo
que tu sempre terás por perto?
Cuida que o dia acabe cedo
ou não te tardará o costume
de pensar do sol fiel amigo
sorrindo o seu célere lume
da juventude sem perigo.
Contudo, não há um imune
ao vulto escuro do inimigo
no qual todos nós nos tornamos
ao acordarmos para a noite.
Sim, é breve aquele sol que amo
o afago é cúmplice do açoite,
o amor brota de um fino ramo
que cede ao peso da sonoite!


Acorda logo para o escuro
antes de pensar tudo claro -
abraçar-te-ei no futuro
sabendo do custo mais caro
que é nutrir um amor puro
sem para outro alguém ter faro?
Vive então a nobre penumbra
de quem não magoou ainda,
de quem se entrega e se deslumbra
e quer da vida uma eterna vinda,
sem ter da nuvem que obumbra,
sem ter uma mera idéia finda.
Mas faz logo com que se note
essa sombra que irá baixar
tão cedo uma peçonha brote
nesse nosso pequeno lar
e de chofre teu peito volte -
vazio - a buscar um novo ar.

domingo, 10 de maio de 2009

(três haicais feiinhos)



Um pio na janela.
Andorinha, que demora!
Colho o sopro dela.







Molha-me o teu céu:
noto os is que me esqueci
de por sob os pingos.







Um âmbar no galho,
mero concreto da flor.
De quem é a lágrima?



terça-feira, 5 de maio de 2009

Não consigo escrever

não consigo escrever
como o solo não evita o raio
a vida não percebe a lápide
e o caçador não nota que alvejar a presa
é apenas
um dos começos de uma história.

não consigo escrever
porque não me prescrevo talento
porque o arcoíris passou de deusa
para fenômeno para bandeira para pandemia
porque tudo que se fala tudo que se cheira tudo que se excreta
tudo que se sente no orgasmo de olhos abertos e boca fechada
não está repleto
não está inteiro
como pensaram os roteiristas.

apenas repito
que não consigo escrever
como se repetem minhas células
minhas cédulas minha crédulas digitais
como se deduzem fórmulas a partir de genitores de bigode
para findar em resultados
infinitamente redundantes
gerações que ora se barbeiam
ora não
de suas intenções.

não consigo escrever
pois não há um assunto
não há uma capacidade uma potência ou sequer o tempo
a estação propícia
uma arma que dispare
através das brancas páginas que residem sob minhas pálpebras
e revele enfim
que em nada mais existe um sentido
exceto nesses cinco ou seis minutos
que me restam para amar
ou para dormir.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Do peso que a luz nos traz

são seis e pouco da matina.
estou de preto.
dirijo para onde todos os
carros
devem ir.
nada para o café da manhã
um cigarro e dois
daqueles comprimidos
que costumam me
fazer feliz.
há a chuva no solo
caída em outras sessões
e o sol no céu
novo
colhe insetos extásicos assim
como a luminária que dorme
bem acima de
mim.
sinto a luz pesar em minha camiseta.
o rádio fala Caetano
e às vezes idiomas os quais
conheço mas que não
compartilham
minha maternidade.
na intermitente linha
mediana
onde mancam os passantes
piétons sem definição
tento imaginar meus olhos
minha boca meu
umbigo meu sexo em
cada redentor
da nublada
travessia.
mas no reflexo vejo apenas
aros em plásticos
nariz embaixo, e
o bigode
pendendo a frente
de qualquer completa
satisfação.
onde
contrairei
minha calada
residência?
que escada para elevar-me além
do fosco teto
sob o qual
expectoro ansiedades
e frustrações?
o aguardo, como a doença, consome-nos
sem vermos.
apenas imaginamos
a sua tóxica fumaça, suas
magras
garras
a nos alcançar
galgando o degrau
e rasgando com um sorriso as
empoeiradas
cortinas do palco.
transito longamente
e não sem severidade
na minha estéril façanha
cotidiana.
inalo a brisa do mangue
o espirro da bela
pobreza.
o que fazer senão acelerar
possuir
tardar
ao se dar conta de que o mundo
finge
que não é o mundo que
finge
e ao ouvir da esfinge
que o fingidor
na verdade
é você?

Impromptu


Aquela menina que me desperta
como uma prece que na noite se grita
na óstia da língua me envia o alerta
que em mim deposita a fé mais contrita.
A sua estrada, dantes tão estrita
não mais carrega uma natureza incerta
e na fogueira que meu corpo atrita
com os seus dedos meu destino aperta.
Porém, sua via não passa de brita
(apesar de finalmente ter certa
a vida que nela quer ver escrita)...
Agora, não importa se estás aberta
já vi tua alma - tão fria e restrita!
Serás sempre longe... a sós e proscrita.

sábado, 18 de abril de 2009

Talvez Macbeth

as árvores que andam
concêntricas ao
castelo recheado de dúvidas.
o rei que em pé
boceja
pois de fato não reconhece
as razões de seu trono
apenas as
dimensões de seu
tempo e os espinhos da sua coroa.
avançam os galhos lá fora
e por hora
a rainha ainda lava as mãos
pois deposta não servirá
aos propósitos da floresta.
e ri o rei cansado
no jardim
hedônico
de suas vontades
e das suas mais variadas
e fugazes
flores.

terça-feira, 31 de março de 2009

Recifeu

ora a lábia
dedilha a senha
lê-se deus no caminhão
minha mão em minha mão em minha mão
os céus...

ponte
pombo
....................pista

piche......................poste
...........porra

........puta........................... prego

placa


fleuves sem rima ou
.... solução
..concreto ....e sim
..................óbolo ou oróboro ou bórico ou bóreo ou mesmo bosta...
sangue
.... no sangue no
..semáforo
sangue no....
..........cartel sangue na sarjeta ................ sangue
no apartamento sangue
......na sala.... do divino na rica ..gruta do suí.no
................na greta fraterna da menina que esperará
além
......de si e além de sangue ....no


aquém

ninguém
..............


........pelo amor a si
amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem e a si amem
e a si amem


e a si amem e a si amém

....................volitivo olvido ......amém...
minhas praças meu fígado minhas cinzas meu nome minha mentira meu comprimido minhas carroças meu olho direito minha foda meu léu meu vômito
minha menina meu suor minhas pernas minha morte minhas fossas meu desalento minha pança meus vinte minutos meus vinte dedos meus vinte anos minha ira meu credo meus pelos minha sede meu carbono meu mangue minha morosidade meu vácuo minha vida minha avenida minhameuminhmeminm eu

segunda-feira, 30 de março de 2009

Metonímia

Após tantos muitos anos de mim
no meu violão eu ainda percuto
os mesmos velhos solos, e me escuto
consciente que sôo sujo e ruim.
Por que repito uma mesma sentença
de quando nem me sabia uma pessoa..
É só o acorde que escuro ressoa
ou eu que carrego uma tristeza imensa?
Nos fretes, nas cordas sublimo uma cura
um escape da ânsia de ser quem eu sou.
Soubessem aqueles que vêem meu show
da minha melancolia mais pura
haveriam de rir de sentimento
tão néscio vindo de um mero instrumento.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Díptico no compartilhar da aurora

I
Um sorriso suspenso anota indecisões,
curta-metragem dos sentimentos passados,
e a beleza propaga um assobio cansado
na macia folhagem de outras estações.
É ainda distante que se repousa a tarde,
uma piada muito longa para se rir -
mas é sem pretensões que todo riso arde,
assim como o amor só existe após partir.
E a silenciosa ética desse arrebol
nada interfere nas estradas do desejo:
ambas conferem significados ao beijo
sob o diário neologismo do sol.
Não há uma fotografia mais natural
da companhia - pura, e vazia de mal…

II
A nossa hora
a gasolina
daquela aurora;
minha menina

se aquele dia
soubesse inda
como se lia
a tua vinda

que qual sereia
soltava árias
para a areia...
Éramos párias

éramos vários
na superfície:
um corolário
ou uma pernície?

Aquela seda
nos acolhia
e tu tão leda
que se encolhia

entre meus dedos
ante o Atlântico..
Dentre meus medos
o mais titânico.

sábado, 21 de março de 2009

Soneto em tempo

Despido no ínterim das paixões minhas
olho o ponteiro de um relógio estranho
que mediante os seus braços de estanho
informa-me justo as horas sozinhas.
A vagareza dessa sua jornada
apenas transmite uma calma sem rumo
qual o fruto que lento perde seu sumo
ao sofrer do sol na exposta sacada.
Mas ao a nudez da alma me estorvar
junto ao sonoro roer dos minutos
percebo que já não desponto o luto
que ainda pensava vivenciar.
Visto-me e de tempo não mais preciso:
viver só é uma questão de sorriso.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Sonetilho lunar


Lupina,
de chofre
menina -
que sofre

dum louco
mister:
se pouco
mulher




termina
em ser
ferina,

sem ver
mais ávida
a vida.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Antropomorfia

O teu semblante
contava estrelas
moscas vermelhas
contra o azul.
Primeiro a acha
depois a brasa:
a nossa casa
coincidia.
Aquela nuvem
naquelas ruas:
eras tão nua,
o guarda-chuva
aberto em mãos…
Minha amada
éramos cada
país do mundo!
E ainda todas
partes do corpo
e cada porto
éramos nós -
velas pequenas
boiando leves
brancas e breves
longes e sós...

Felicidade
onça sozinha
se eras minha
hoje quem és?

sábado, 14 de fevereiro de 2009

"La reine que se nourrit du pain de ma tristesse" ou "Me, myself and Lennon"

I'm so tired
but not sad
like a solo
in an old
sixties' song.

I feel stupid..
or disputed
would describe
it way better?

It's been hours
I mean, days
that I've had
on my face
this one smile.

Not a smirk
no, not quite
it's something
that'll grow
even when
it appears
far away.

It means that
- I think so -
in the end
I would give
you my peace
just as you
wouldn't have
liked me to.

Even if
I would not
(and I won't
not again)
could you really
be as free
as you say
that you want
me to be?

Or at least
could you let
die in you
that one fear
that weighs out
your own soul
happiness
and desire?

Amused with
my own self
high and out
in my tree
I just smile:
happy mirror
of my old
heart that beats.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Conundrum

A calma quente de uma tarde
no desafio de uma manhã:
gume estranho, espada terçã
que corta mas não me responde
no que eu devo acreditar.
É longe que repousa o mar?
E, se sim, por que, como e onde?

*

Por onde andam meu remorso
minha paixão minha ternura
(pequeninas garças escuras
que não buscam uma direção)?
Não são fósseis ou sentimentos
mas apenas bichos isentos
de sua paz ou revelação.

*

Sabiamente tolero cóleras
em copos de café mecânicos.
Sorvo-os, servindo-me o pânico
de odiar minha salvação;
caminhos quadrados sem fim
quadros recortados em mim
corredores sem compreensão.

*

O vapor rubro embaça os óculos
que ainda estou por usar -
nuvem ardente a oscilar.
Nisso,
um verme vira esponja no chão
e a raiva banguela que sinto
vira o verso livre no qual minto
qualquer coisa que me passe
sobretudo meu amor
e minhas frágeis intenções.

Colaboração


O Mirificácia é um projeto de fomento à criatividade e cultura e, principalmente, um projeto anti-alienação da nossa geração retrógrada. Esperamos sensibilizar e despontar em todos o nosso espírito. Qualquer inspiração que queiram publicar, mandem para nós.

Papillon avant l'orage

Moi non plus, je ne suis personne, j'aimerais être une porte pour pouvoir rester toujours silencieux, ou j'aimerais être une sculpture en sable car je pourrais disparaître dans un coup d'une vague. Je voudrais rester là-bas dans une place, n'importe où, mais que je pourrais y rester sans complications. J'espère qu'un jour je vais pouvoir me nourrir de la musique et des chansons des oiseaux. J'attends un jour où je pourrais me coucher sous l'ombre d'une belle fleur. Ou d'un érable qui boit le rafraîchissement de l'eau de la neige qui fond. Ou l'ombre d'un coup de soleil qui traverse la fenêtre, inaperçu, incroyable. Pourtant, j'aimerais voler les temps de tout le monde et leur dire tout. Leur raconter les rêves que je n'en ai jamais eu aucun, mais leur dire tous les details des choses les plus simples et crier sur les vies des personnes qui n'existent pas. J'aimerais devenir ami d'un certain montant des gens spectaculaires et pis les oublier pour pouvoir les connaître encore et profiter de ses magnificences particulières une autre fois. Ce sont des expériences fantastiques: connaître une personne, tomber amoureux, conquérir quelqu'un, être sympathique, gagner la confiance de quelqu'un, faire une amitié, commencer une relation, peut-être apprendre une langue, faire une blague et pas réussir. Ou quand un lieu te manque, ou quand une personne te manque et tu te rappelles de nombreuses choses qui peuvent te faire pleurer ou rire comme un fou. Mais c'est pas bon, et c'est vraiment méchant pour part du destin de te faire rien sentir. La pire part est quand tu ne sens pas. Je déteste ça et me déteste quand ça arrive. Pouvoir rien sentir et rien faire. Vouloir cacher de toi-même les choses qui n'arrivent pas. Je pourrais être une feuille, une bande, le blanc ou le noir, mais s'il vous plaît, attaquez-moi le feu.

por Fabinho

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Dietética, tua natureza...

Dietética, tua natureza, criança
chora lágrimas artificiais
sob um sol artífice
de queimaduras que não aconteceram.
Teu passaporte, minha andorinha
não te permite retornar -
exilada em ti mesma
doce, mas não natural
longe e com aftertaste
amargarás bem
sozinha.

sábado, 31 de janeiro de 2009

luz e fé

Estrela matutina

branca irmã

tua queda

vespertina

sub-reptícia e febril

teu desafio, tuas escamas

és réptil

mas teus nomes

tantos

quem repetiu?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

sábado, 27 de dezembro de 2008

Maelström

A ilha se faz ostra:
multíparo arquipélago
de olhares perolados.

Ciúme, fel salobro,
da nervosa maré
ácida negra língua.
Nau, talássica pílula.

Eu, arábica vela
entre éolo e céu,
em turbulência, só,
sei procrastinação.

Louco náufrago exímio,
amo o escuro do pélago
e o átimo da gota.

sábado, 20 de dezembro de 2008

(três haicais cafeinados)


Meu café fumaça,
chove o verão sem saber.
Ele ou eu que passa?




Meu café fumaça,
a velhice vela ao lado -
sou eu, mas sem ser.


Meu café fumaça,
uma ânsia por fim me enlaça:


sou desesperado.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Poeminha ecológico (desconstrução)


Se o amarelo for a cor em questão
que brote novo o rubro da paixão
banindo os tristes girassóis da alma.
Mas que nunca faça reinar-se a calma -
longe do não ser queremos estar!
A maré da vida, os elos do lar
arrancam os sós coqueiros da rotina
e atam os longos nós das nossas sinas
fazendo eterno nosso reencontrar.




O amarelo e
a maré , os elos
da vida, são
só coqueiros, nunca girassóis.
arrancam nosso eterno,
nós das nossas sinas:
que brotem novos os da rotina
banindo a longa calma do lar.
atem-se as almas sem reencontrar,
queremos estar longe.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

sábado, 29 de novembro de 2008

Veranos

Mar e tédio; o que me falta para o verão?
Luz. E a cerveja, tão bem cabida no copo.
Um biquíni, uma ária, o papo e eu topo:
areia na alma, na boca e no calção.
É de se fazer triste a preguiça que dá
na sombra de um guarda-sol, nosso vero amigo:
quanto mais toca o celular, mais me desligo,
mijo, só quando na bexiga muito há.
Lento, passa rápida a formosa estação
e deixando sua marca, o famoso chupão -
que teima em, sempre, o nosso pescoço tingir -
lembra que somente nesses meses de sal,
infância boa onde já se sabe o mal,
é possível viver sem a vida existir.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Travessia cotidiana


Queria mesmo, sabe, minha mãe
que durante o dia eu tivesse medo,
que toda noite começasse cedo
e não me houvesse nunca capitães.

Assim faria eu a minha vida,
já de manhã buscando logo a tarde,
fazendo manha sem fazer alarde,
virando antes a página não lida,

para não saber de mim mesmo em meio
a engrenagens, metálicos receios:
sem sementes, sem vento ou direção.

Mãe, minha mãe de cada dia meu,
que seja eu crente enquanto for ateu
mas nunca esteja só na solidão.

domingo, 23 de novembro de 2008

Arabesco Pessoano








A tristeza é o pão da vida,

dela é o genitor!

E a alegria é a querida

irmã sua que se abortou..

A Brazilian Urban Poem

I go in white on the city’s grey streets,
sniffing for a sweet scent amid the toxicity.
Yet, the stench of the city overcomes my senses,
bringing me ire and nausea,
making me tired of society and humanity;
of the imprisonment of the mind by this cage of flesh;
of the suffering of the living and the happiness of the dead.

I look around me:
concrete giants tower, shadow and amaze.
I see lights and sewers and dirty sidewalks;
the solid rivers cut by steel mammoths;
I see speed speed speed.

Noise,
a roar stretches from earth to heaven,
echoing in celestial magnitude:
an iron dragon that cries desperately,
grasping for height, sky, space.

Sounds, movement, technology and improvements are everywhere.

Suddenly,
a man flies over a car and smashes his body against the ground.

Observers, doctors, bums, a woman that claims to be a wife, cheap lawyers and curious animals,
agglomerate and watch.
Agglomerate in awe.
Agglomerate to witness death.



A flower, yesterday, sprouted on a dark corner.
Passers pass aside, dodging any sign of its existence.




Further in the jungle: an abandoned lot,
inhabited by animal humans –
human animals –
eating scraps, eating trash.
Cannibals?
A new cult or civilization? A revival of ancient tribes and their customs? Anthropophagi?
No. Just ravenous miserable spitted-on people doing whatever they can to stay alive.

Meanwhile, the anthill proceeds with its daily toil and labor;
Swarm of locusts… parasites.

Disgusted, I flee back home, to my haven.
Looking out the window, I try to see beyond the obstacles:
there are dark clouds populating the sky
and the horizon can no longer be seen.

At ground-level a drunk performs an unusual trick, slips on dog shit, sounds a bacchic yawp, and falls to the floor.

Unconscious.

And I wish I was him.